Sinead O’Connor recorda em livro agressão de Prince e abusos da mãe – 09/06/2021 – Celebridades

Sinead O’Connor está sozinha, como ela prefere. Ela está encarando a pandemia em uma aldeiazinha no topo de uma montanha na Irlanda, assistindo a séries policiais na TV, comprando decorações de jardim online e acompanhando atentamente as notícias americanas na CNN.

Em uma tarde nublada recente, ela tinha a cabeça calva encoberta por um hijab azul-marinho e um cigarro permanentemente entre os dedos, e quando se inclinava por sobre o tablet, dentro de sua estufa de paredes de vidro, a impressão era a de que estava hermeticamente selada em seu pequeno mundo.

“Tenho sorte”, ela disse, “porque minha companhia me agrada”. Sua casa tem paredes de cores brilhantes, saturadas, que saltam contra o panorama monótono do céu irlandês e parece uma dobradura em um livro infantil. Rosas cor-de-rosa enfeitam as janelas, e a deusa indiana Durga estende seus oito braços na estampa de um cobertor que recobre um sofá vermelho com cara aconchegante.

Quando O’Connor me levou em uma pequena visita por iPad à sua casa, durante nossa entrevista, o lugar todo parecia uma dobradura: as flores eram falsas, compradas na Amazon, e suas duas belas cadeiras de veludo não foram feitas para sentar.

“Comprei cadeiras desconfortáveis deliberadamente porque não gosto que as pessoas fiquem muito tempo”, ela disse. “Gosto de ficar sozinha”. Mas ela fez essa revelação com uma risadinha brincalhona que soava quase como um convite.

O’Connor é irresistível, por mais que tente lutar contra isso. Exala uma familiaridade terna, graças a seu sorriso angelical, à sua franqueza e ao fato de que possui uma das cabeças mais emblemáticas da história da cultura pop.

No começo da década de 1990, O’Connor se tornou tão famosa que as dimensões de seu crânio pareciam ser parte da consciência pública. Se você se lembra de duas coisas sobre ela é que ela ganhou fama com um close-up persistente de seu rosto no vídeo de sua versão de “Nothing Compares 2 U” —e por encarar a câmera do “Saturday Night Live”, rasgar uma foto do Papa João Paulo 2º e destruir sua carreira.

Mas não é assim que O’Connor recorda as coisas. Na verdade, o oposto lhe parece ser verdade. Agora que escreveu suas memórias, “Rememberings”, ela narra aquela história de seu ponto de vista. “Para mim, ter um disco no primeiro lugar das paradas é que tirou minha carreira dos trilhos”, ela escreve, “e rasgar a foto me recolocou no caminho certo”.

O’Connor se via como cantora de protesto punk. Quando chegou ao topo das paradas pop, estava aprisionada. “A mídia me retratava como louca por não me comportar como uma estrela pop supostamente deve se comportar”, ela me disse. “A mim parece que ser uma estrela pop é quase como estar na prisão. É preciso ser uma boa moça”. E O’Connor definitivamente não é uma boa moça.

“Louca” é uma palavra usada para fazer muitos trabalhinhos sujos, no ramo da cultura. É uma maneira redutiva de mencionar doença mental, sim. Mas também é um rótulo escorregadio que pouco tem a ver com a maneira pela qual o cérebro de uma pessoa funciona e tudo com a forma pela qual ela é recebida culturalmente. Chamar alguém de louco é a técnica definitiva para silenciar a pessoa. Porque a priva de sua subjetividade.

Quando O’Connor apareceu no Saturday Night Live, em outubro de 1992, ela já tinha sido definida como insana –por boicotar o Grammy Awards, onde estava concorrendo ao prêmio de disco do ano (“eles só reconhecem ganho material”, ela disse), e por se recusar a permitir a execução do hino dos Estados Unidos antes de seus shows (porque hinos nacionais “não têm coisa alguma a ver com música, em geral”). Mas depois do programa, sua reputação parecia ter sido colocada em risco permanente.

“Não me arrependo do que fiz. Foi brilhante”, ela disse sobre seu protesto contra os abusos da Igreja Católica. “Mas muito traumatizante”, acrescentou. “Foi como abrir a temporada de caça a mim, a vaca louca”.

Pouco depois do programa, O’Connor apareceu em um show de tributo a Bob Dylan e, quando a plateia vaiou, ela ficou tão abalada que achou, no começo, que estavam rindo de sua roupa.

Joe Pesci ameaçou surrá-la em um monólogo no Saturday Night Live e mais tarde, no mesmo palco, Madonna zombou dela gentilmente, fazendo uma careta pseudozangada e rasgando uma foto de Joey Buttafuoco, que na época era manchete permanente dos jornais sensacionalistas ao ser julgado por crimes sexuais.

O’Connor foi condenada pela Anti-Defamation League (Liga Anti-Difamação, em português) e por um grupo chamado National Ethnic Coalition of Organizations (Coalizão Nacional de Organizações Étnicas), que alugou um rolo compressor para esmagar centenas de seus discos diante da sede de sua gravadora. O jornal The Washington Times a definiu como “o rosto do puro ódio”, e Frank Sinatra a chamou de “bruaca estúpida”.

Agora o livro de O’Connor chega em um momento no qual a cultura parece ansiosa por reavaliar esses velhos julgamentos. O primeiro comentário para a versão postada no YouTube do programa “Behind the Music” sobre O’Connor é: “Não deveríamos todos dizer que ela estava certa?!”

Poucas pessoas alijadas da cultura tiveram sua posição mais confirmada pela passagem do tempo: casos de abuso sexual contra crianças e seu acobertamento pela Igreja deixaram de ser segredo.

João Paulo 2º, por fim, admitiu o papel da Igreja nesses casos em 2001, quase uma década depois do gesto de desafio de O’Connor. Mas a reação exagerada ao que ela fez não se referia apenas a seu protesto estar certo ou errado; se referia ao tipo de provocação que consideramos aceitável, vindo das mulheres da música.

“Não porque eu era famosa ou qualquer coisa assim, mas porque eu era um ser humano, eu tinha o direito de erguer a mão e dizer como eu me sentia”, disse O’Connor.

Alguns artistas têm a habilidade de chocar de uma maneira que aumenta a venda de discos, e outros a de temperar sua ira política em forma de música palatável, mas “Sinead não é o tipo de pessoa que tempera”, disse seu amigo, o músico e ativista Bob Geldof. “Quanto a isso, ela é acima de tudo uma mulher irlandesa”.

Para compreender por que O’Connor pode ter visto sua inclusão na lista negra como libertadora, em termos políticos, é preciso levar em conta o quanto as percepções sobre ela eram incorretas, ao longo de sua carreira.

Ela ainda era adolescente quando começou a trabalhar em seu primeiro disco, o feroz e etéreo “The Lion and the Cobra”, e um executivo –“o cara mais quadrado do planeta”– a convidou para almoçar e disse que ela precisava se vestir de um jeito mais feminino e deixar crescer seu cabelo repicado.

Por isso ela foi ao barbeiro e raspou a cabeça. “Eu parecia um alienígena”, ela afirma em seu livro, o que na verdade era como uma válvula de escape se a alternativa era parecer uma mulher humana.

Quando O’Connor engravidou, no meio da gravação, ela escreve que o executivo chamou um médico e tentou coagi-la a fazer um aborto, que ela rejeitou. Seu primeiro filho, Jake, chegou pouco antes do lançamento do disco.

Mais tarde, quando “Nothing Compares 2 U” a tornou uma estrela, O’Connor diz que o compositor da canção, Prince, a aterrorizou. Ela tinha prometido que revelaria os detalhes “quando eu for velhinha e escrever um livro”, e o fez agora.

Ela escreve que Prince a convocou à sua macabra mansão em Hollywood e a repreendeu por dizer palavrões em entrevistas. Mandou que seu mordomo servisse uma sopa a O’Connor mesmo que ela tivesse recusado o prato diversas vezes, e sugeriu docemente uma briga de travesseiros, mas a atingiu com algo sólido que ele tinha escondido dentro da fronha.

Quando ela fugiu de lá a pé, no meio da noite, Prince a perseguiu de carro e depois desceu do carro e a perseguiu correndo pela estrada.

Prince é o tipo de artista que é chamado de louco de um jeito positivo, como em “você precisa ser louco para ser músico”, disse O’Connor, “mas existe uma diferença entre ser louco e abusar violentamente de mulheres”.

Ainda assim, o fato de que sua canção mais conhecida tenha sido escrita por esse tipo de pessoa não a abala em nada. “Para mim, a canção é minha”, ela disse.

A declaração de O’Connor no Saturday Night Live era mais pessoal do que a maioria das pessoas sabia. No livro, ela relata os abusos físicos que sofreu de sua mãe durante toda a infância.

“Ganhei um prêmio no jardim da infância por ser a criança mais capaz de me encolher, em minha classe, mas a professora não sabia porque eu era tão boa naquilo”, ela escreve. Há um motivo, no vídeo de “Nothing Compares 2 U” para que ela comece a chorar quando canta o verso sobre as flores de sua mãe.

O’Connor tinha 18 anos quando a mãe morreu, e naquele dia ela apanhou a única foto que sua mãe tinha na parede de seu quarto: a imagem do Papa. O’Connor guardou a foto cuidadosamente, esperando o momento certo de destruí-la.

“O abuso de crianças é uma crise de identidade, e a fama é uma crise de identidade. E por isso, fui direto de uma crise de identidade para outra”, ela disse. E quando tentou chamar a atenção para os abusos contra crianças, ao longo de sua carreira, foi sempre criticada.

“As pessoas diziam que ela era frágil”, afirmou Geldof. “Não, não, não. Muita gente teria desabado sob o peso de ser Sinead O’Connor, mas ela resistiu”.

O’Connor se sentiu livre, na verdade. “Podia ser eu mesma. Fazer o que amo. Ser imperfeita. Ser doida, até”, ela escreve no livro. “Não sou uma estrela pop. Sou uma alma problemática que precisa gritar no microfone de vez em quando”.

Ela vê as reações aos seus atos como tendo ajudado a tirá-la da vida errada, a do pop convencional, e a forçado a se sustentar tocando ao vivo, que é onde ela se sente mais confortável como artista.

“Rememberings” documenta uma vida difícil, mas também é deliciosamente engraçado, a começar pelo título. (“Como eu já disse, não consigo me lembrar de muitos detalhes porque estava sempre chapada”, ela escreve.)

O livro traz muitas histórias charmosas sobre o período em que O’Connor estava no auge da fama. Ela nega a afirmação de Anthony Kiedis, vocalista do Red Hot Chili Peppers, de que eles tiveram alguma coisa (“só na cabeça dele”), mas confirma um caso com Peter Gabriel (para descobrir os termos chulos que ela usa para descrever o romance entre eles você vai ter de comprar o livro.)

Mas “Rememberings” não oferece uma volta por cima arrumadinha e alegre. Os momentos de reavaliação cultural que vivemos parecem um pouco com a concessão de um prêmio de consolação. As consequências de julgamentos passados não podem ser revertidas de todo.

Enquanto isso, as mesmas dinâmicas se repetem, vezes sem conta. Nos últimos anos, a saúde mental de O’Connor se tornou assunto para os programas de terapia como espetáculo produzidos por figuras como Dr. Drew e o Dr. Phil, que amam retratar doenças como dramas e converter a dor alheia em entretenimento.

O’Connor viu um pouquinho de si mesma em mulheres que a sucederam, como Amy Winehouse, Britney Spears. “O que fizeram com Britney Spears foi repulsivo”, ela disse. “Se você encontra um desconhecido chorando na rua, você abraça a pessoa. Não começa a tirar fotos dele, sabe?”

Não escapa a O’Connor que, na noite em que Spears foi universalmente categorizada como maluca, ela tenha decidido raspar o cabelo. “Não sei porque a chamaram de louca por raspar a cabeça”, ela afirmou. “Eu não sou”.

O’Connor continua a raspar a cabeça, sozinha, a cada 10 dias mais ou menos. “Não me sinto eu se tenho cabelo”, ela disse. Usualmente ela usa um hijab, agora; converteu-se ao islamismo alguns anos atrás e adotou o nome Shuhada Sadaqat, embora continue a atender por O’Connor também.

A primeira parte do livro foi escrita em 2015, mas, depois de passar por uma histerectomia e “um colapso nervoso total”, como ela descreve no livro, O’Connor precisou de tempo para revisitar o projeto.

Durante seis anos, ela passou por diversas internações em instituições de saúde mental –o livro é dedicado em parte à equipe e aos pacientes do St. Patrick’s University Hospital– e agora tem alguma clareza quanto à maneira pela qual sua mente funciona: em termos gerais, ela sofre de síndrome de estresse pós-traumático e de distúrbio borderline.

Sua dificuldade de lembrar do período posterior ao episódio do Saturday Night Live também é produto do trauma. “Foram dez anos muito solitários”, disse O’Connor. “Confio de verdade no subconsciente”, ela acrescentou. “Se ele não quer que você se lembre de algo, há bom motivo para isso”.

Mas alguns anos atrás, ela estava se preparando para uma turnê, depois de anos sem pegar a estrada, e “não conseguia lembrar as letras das malditas canções”, ela disse. Pela primeira vez, ela recorreu à internet buscando artefatos de sua carreira. “Fiquei espantada porque era muito bom”, ela disse. “Sou eu! Meu Deus!”

Dois anos atrás, o produtor irlandês David Holmes abordou O’Connor quando a viu em um evento. Ele sempre foi fã da cantora e perguntou se ela faria um disco com ele sobre cura. “Ela é um indivíduo extremamente complexo e não deveria ser julgada”, disse Holmes.

“Ela não sai de sua linha para tentar machucar os outros. Ela é Sinead, só isso, e diz o que pensa”. O disco que eles produziram, “No Veteran Dies Alone”, com sete faixas, sai este ano.

O som etéreo de O’Connor agora tem um fundo rouco. Quando ela canta, como na faixa título, que “existem dois eus, o que você vê e o eu real, que eu não deveria ser”, sua atração é inegável. “Ela tem, aquela voz, uma voz que é quase um amigo”, nas palavras de Holmes.

Os amigos de O’Connor a descrevem como uma pessoa naturalmente amorosa. “Ela é uma alma generosa”, me disse Shane McGowan, cantor da banda Pogues, em um email. “Cuidou de mim quando eu mais precisava”. Kara Hanahoe, outra velha amiga, disse que “descobri que se pode confiar nela e acho que essa é a coisa mais importante”.

O’Connor troca emails dedicadamente com seus correspondentes. Quando eu lhe enviava mensagens, ela respondia assinando “Sinead / Shuhada” e pontuava as mensagens com emojis de óculos escuros e flores de cerejeira.

Mas seu complexo estresse pós-traumático se traduziu em agorafobia, e as circunstâncias de sua vida nem sempre permitiram que as pessoas ficassem por perto. Geldof conhece pessoas que deixaram de falar com O’Connor, mas ele não está entre elas. “Ela pode dizer o que bem quiser sobre minha mulher e eu”, disse Geldof. “Porque é ela”.

O’Connor vive feliz sozinha, com seu jardim, seus cigarros Mayfair, seus iPads e seu “namorado imaginário”, Taye Diggs, para lhe fazer companhia, nos episódios de “Murder in the First”. “Não fui um grande sucesso como namorada ou cônjuge”, ela disse. “Tenho que admitir que sou difícil de lidar”.

Mas alguns meses atrás, ao se mudar para sua casinha alegremente remota, ela descobriu que diversas outras mulheres solteiras viviam por perto. Logo duas delas vieram se apresentar, trazendo pão e scone (um tipo de bolinho doce), e O’Connor se viu tendo um grupo de amigas pela primeira vez desde a adolescência.

“Se for preciso ajudamos umas às outras até a esconder cadáveres”, ela disse. O problema de lançar um livro de memórias é que isso forçou O’Connor a reviver o passado, o que pode ser uma experiência traumática, mesmo que ajude a provocar uma revisão cultural.

“Montanha abaixo, como eu digo, ninguém consegue esquecer Sinead O’Connor”, ela disse. Mas na aldeia, ninguém se incomoda, “o que é ótimo para mim”, ela disse. “É adorável ter amigas”.


The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

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